JÁ NÃO SÃO MAIS CRIANÇAS
Aquilo não era fruto de treinamento militar, na verdade era puro instinto. Instinto de fera, não uma fera naturalmente ameaçadora, mas uma fera naturalmente inofensiva que no momento estava desesperada, traduzindo todo o seu medo em ação assassina.
Naquela região tínhamos vantagens sobre os neoliberais, isso graças às sucessivas insurgências daquela comunidade contra aqueles que haviam invadido e dominado o local.
A batalha estava ganha, mas eles resistiam. Na rua em que eu estava havia dois caminhões militares enfileirados andando em baixíssima velocidade, na traseira do caminhão anterior havia um atirador que logo foi abatido. Como os veículos estavam quase parando, o que significava que seus motoristas se encontravam mortos ou muito machucados, me foi dada a ordem de ''limpar'' as cabines sem me expor muito, usando incineradores. Quebrando o vidro do primeiro caminhão com um balaço, taquei o incinerador sem nem olhar para as vítimas na cabine, que me surpreenderam por estarem vivas. Aqueles soldados gritavam como crianças enquanto queimavam, foi o que pude observar enquanto seguia para o segundo caminhão. Quando estava prestes a quebrar o vidro para arremessar o incinerador, me dei conta de que nesse veículo havia apenas uma velhinha desesperada algemada ao volante. Por sorte apaguei o incinerador a tempo e a socorri. Ela contou que foi obrigada a dirigir o caminhão a mando dos neoliberais com o intuito de distrair os nossos homens. Foi um alívio muito grande não ter queimado aquela senhora viva, mas o alívio durou só até o momento em que percebi que se os neoliberais usaram aquela senhora para nos distrair dentro daquele caminhão, eles com certeza fizeram a mesma coisa no outro veículo, deixando o pobre atirador na caçamba apenas para aguçar o disfarce. E logo, juntando os pontos, concluí que aqueles gritos dos soldados ardendo na cabine que pareciam ser de crianças, eram realmente gritos de crianças. Crianças que estavam ardendo.
Muitos companheiros meus aparentam contornar o horror psicológico em uma noite de bebedeira, pois não há motivo para se lamentar sabendo que a possibilidade de logo estarmos mortos é grande. Inclusive compartilhamos esse senso comum com os inimigos que aprendemos e reaprendemos a matar. A cura é álcool e sexo... Mas agora não é tão simples assim, pois aqueles eram gritos de crianças. DE CRIANÇAS e não de marmanjos engolidores de karma que amenizam suas dores com boemia.
Eram gritos de crianças...
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